quarta-feira, 3 de julho de 2013

Memórias de viagem: As idas e vindas de meu pai



-- Você só me procura para pedir dinheiro...— e me olhou com aquele seu olhar altivo beirando a arrogancia, aquele seu olhar de olhos apertados e cheio de desdém, eu não conseguia ver a imagem de um  pai e um filho conversando naquele momento... Ele estava bem vestido como sempre, sapatos pretos reluzentes, cabelos engomados, sim na época não existia o gel, era a goma, a brilhantina, deixava os cabelos perfeitos, bem alinhados, seu rosto era harmônico, rosto claro, caucasiano, talvez da melhor estirpe europeia, ou melhor escandinava, pele clara, olhos verdes, cabelos louros, perfeitamente engomados.
          -- Mas é só pelo dinheiro mesmo, você é meu pai, tem que cuidar de mim.  Preciso ir ao dentista – Saí chutando tudo ao meu redor, pisando duro, arfando, bufando...
            De outra vez...—Tato, você anda sempre mal vestido rapaz, compra uma roupa melhor, esta vendo esse sapato? Olha bem...cromo alemão, uma nota. – Dessa vez não disse nada, a situação era tão esdrúxula que não merecia comentário...
            Nossa relação, de minha parte,  era um misto de admiração e indignação, admiração porque orgulhava-me principalmente sua beleza, o riso e a gargalhada dos dentes grandes, o branco mais branco que poderia existir, suas roupas sempre perfeitas, passadinhas.....olhava para ele e ao mesmo tempo pensava – que grande canalha.
            -- Tato no seu aniversário, acho que vou te dar um relógio bem bonito de pulso... – Eu olhava e concordava, já não levava mais a sério, eram tantas promessas que era a história de entrar por um ouvido e sair pelo outro, eu não dava mais crédito, ele era assim um canalha bonachão, uma serpente nos rodeando e hipnotizando os mais incautos.
            -- Essa mulher é maravilhosa, não conheço pessoa mais digna, mais forte que ela – era aniversário de minha mãe, comprei bolo, refrigerante, salgados e lá estavam os amigos, olhei para ele com meu olhar sério mas por dentro ria de mais uma canalhice de sua parte, mais uma presepada, com aquele seu discursinho barato, lançando seu populismo de segunda por onde quer que passasse.
            Ele era assim e acho que morreu assim, sua palavra não tinha palavra, ou melhor, não tinha crédito, era dita só para agradar, só para angariar, para sequestrar nossa fé e nossos sorrisos.
            Eu o admirei, admirei, pois queria ser bonito como ele, queria ter seu sorriso, seus cabelos e na verdade envergonhava-me de minha mãe com aquela sua beleza ora mulata, ora indígena...eu não sabia definir ao certo, mas sabia apenas que ela me envergonhava com sua risada espalhafatosa, sua fala errada, ela era bonita, sim tinha sua beleza mas não tinha a beleza dele.
            Por muitas e muitas vezes me culpei e recriminei, pois quem estava sempre presente era ela, nas reuniões da escola, onde meu desempenho era pífio, o dinheirinho para ir ao cinema sozinho nos finais de semana, as roupas que ela ganhava e reformava imediatamente para mim, e se tornavam belas calças e camisas  que pareciam saídas de uma loja, perfeitas em meu corpo.
            Tivemos muitas idas e vindas, e’ claro, como todas as famílias, mas era ela quem sempre estava lá, de uma forma que eu julgava correta ou de uma forma totalmente errada. Eu não gostava das surras, mas quem iria gostar? Não gostava porque não era um mero corretivo, eu sentia que as surras eram carregadas de um sentimento de revolta, de frustração e eu ali parado a sua frente era a sua válvula de escape. Válvula de escape de meu pai que não a amava e  a havia enganado, válvula de escape de sua família que passou a ignorá-la, válvula de escape de sua condição pobre e entregue ao mundo, válvula de escape por saber que havia um ser sob sua responsabilidade, assim como houve outros e que ela não tinha a mínima noção ou condição de como cuidar.
            -- Tato eu era jovem, desculpe-me, eu errei mas sua mãe errou também – olhei para ele, e concordei com a cabeça, eu queria era descer do carro, pensei que ele poderia ser um bom politico, um bom advogado, era articulado, sempre aparecia com palavras diferentes, mostrando que de certa forma era letrado, pelo menos para meu mundo limitado culturalmente.
O dia que ele falou a palavra “subterfúgio”, achei o máximo, corri para o dicionário – sub ter fui gio: ser evasivo, usar de outros recursos –Puxa, essa palavra quer dizer tudo isso? Rí um pouco procurando outras palavras no dicionário.
            Outro dia estava correndo, encontrei com ele e um amigo, correndo pelas ruas do Jaçanã – Tato, vamos correr juntos? – Olhei e pensei, porque será que ele nunca me convidou para fazer nada? – Vamos, vamos sim , vamos correr aqui nesse conjunto residencial?
            Saímos nós três correndo, uma volta de um quilometro, duas voltas, três voltas... – Caramba Agenor, nós parecemos um fusca e o Tato uma Mercedes,  -- e caiu na gargalhada, correndo tropegamente ao meu lado.
Olhei confuso, quase soltei o comentário que – nem estava me esforçando – mas por conta de minha discrição e culto a humildade fiquei quieto.
            Ele era um anônimo simpático, nunca fez questão de estar presente em nada e minha melhor decisão foi o dia que decidi vingar-me de todas as desgraças que ele tinha feito comigo e minha mãe e a vingança como já comentei outras vezes era trata-lo muito bem, não poderia haver vingança melhor que essa.
            -- Tato?
            -- Sim?
            -- Estamos aqui no hospital, o pai não está bem... – Renato era meu meio irmão, nunca tivemos contato, apenas sabíamos da existência um do outro.
            Ele estava inconsciente, sua aparência já não tinha vida, era uma aparência ausente, não havia nada de vida presente alí, mas o terrível ao olhar para ele, era a indiferença que sentia a toda aquela situação a minha frente.
            Renato chorava, Neusa olhava com seu olhar triste, silencio no velório, alguns militares segurando seus quepes de cabeça baixa,  curiosos, tio Hélio em um canto conversando com mais um militar, a namorada de Renato e eu ali pensando no meu treino de corrida, no ultimo vinil que havia comprado, pensando em minha mãe, repassando alguns momentos importantes de minha vida em que ele naturalmente não estava presente.
            Eu pensava que talvez ele pudesse ter me protegido quando encarava diariamente minha avó frente a frente com sua fúria e seu chinelo, quando moramos por algum tempo na rua,  quando enfrentei alguns professores sádicos, ou quando tive meus primeiros problemas com a tal da matemática.
            Mas quantos pais são ausentes nesse mundo? Quantos pais são ausentes mesmo estando presentes? Será que a solidão que carrego comigo mesmo estando sufocado de pessoas ao meu lado são de alguma forma culpa de sua ausência? Será que é uma posição confortável para mim, sempre culpa-lo por todo e qualquer fracasso que a vida me reservar?
            Será que um dia irei perdoá-lo por ter permitido que a vida levasse meus dois irmãos para longe de mim? Será? São perguntas que acredito nunca terei a resposta.
            --  Tato, sei que ele errou, ele era um moleque como você é agora, sei que onde quer que ele esteja vai ficar feliz se você o perdoá-lo, disse-me uma vez sua segunda esposa – Olhei em seus olhos, ela desviou o olhar, respondi – mas eu já o perdoei Neusa, esta tudo bem.
Menti, e saí caminhando pelas ruas arborizadas de Santana – Adoro esse bairro, um dia quero morar aqui – olhava os raios de sol travessando as copas de algumas árvores, esse era meu pensamento.  Andava devagar, um vento frio batia em meu rosto, enfiei as mãos no bolso, cobrí com um cachecol meu nariz,  repassei mentalmente alguns momentos de minha vida, tinha uma certeza nesse momento, nunca iria perdoá-lo, mas talvez eu poderia esquecer tudo... minha memória sempre foi terrível, então, que minha memória e suas fraquezas levassem todas as lembranças do que ele não foi um dia, de suas ausências e de duas mentiras.         Quem sabe....

5 comentários:

Anônimo disse...

Um cotidiano enfrentado por muitos por ai. Um relato emocionado e de um frescor arrebatador.

Wellington Bordinhon

Sandra Kobata disse...

Querido Altair! Mais uma vez, transformando sentimentos em palavras com maestria! É como se as palavras entrassem pelos poros e saíssem em forma de lágrimas...! Parabéns!

Altair Almeida disse...

Meus amigos de sempre, um grande abraço.

Graziella disse...

Alltaaaaa

Alta Almeida disse...

Graziiiiii queridaaaaaaaa