sexta-feira, 29 de março de 2013

Diario de Viagem: National Kid, Tina e Leco











          

          






        


        -- Leco, encosta mais, esta muito frio aqui – ele olhou com aquele olhar repleto de amizade e compaixão e começou a arfar rapidamente e a latir, Tina olhou para Leco, abanou sonolentamente o rabo e voltou a dormir.
A noite era fria, eu chorara um pouco, pois quando caí no poço, ralei-me um pouco, mas não sentia dores maiores que os ralados, apenas, sabia que minha mãe a essa altura estava desesperada.
            -- Leco, vem menino, encosta mais – Eu estava grudado em Tina que tremia muito naquela noite gelada, abracei-a, ela gemeu baixinho e parou um pouco de tremer. Os pernilongos nos picavam por todos os lados, então, não tinha jeito não conseguíamos dormir.
            Quando fomos morar de favor na casa de Isadora, amiga de minha mãe, amiga fiel desde sua chegada a São Paulo, eu, Tina e Leco nos apaixonamos imediatamente, eu pegava nacos de carne e algumas sobras gostosas como pães e biscoitos e sempre jogava por baixo da mesa, minha tática estava um tanto quanto manjada, pois todos sempre ficavam de certa forma me vigiando nas refeições.
            Viver na casa de Isadora, foi um intervalo como a chegada a um oásis em nossas vidas, deixamos temporariamente de perambular a esmo pela cidade desde a expulsão de minha mãe da casa de minha avó e ainda não havíamos iniciado nossa vida independente em nossa casa de cozinha de chão pisado no Piqueri.
            A casa de Isadora ficava lá no Jardim Brasil, bairro onde a criminalidade era o fundo normal do cotidiano de todos, então tiros constantes, brigas pelos motivos mais banais, batidas constantes da policia eram a rotina de todos os dias. Isadora em meio a esse cenário tinha sua casinha aconchegante, com um pequeno jardim na frente, um pé de jabuticaba e um de pitanga na parte de trás e um papagaio que alternava os assobios com alguns palavrões ensinados pacientemente por Isadora.
            -- Mas ele fala um monte de nome feio Isa, e se tiver visita? – Isadora riu e respondeu – quem sabe as visitas ensinam algum palavrão novo para o Bicudo, né Nhanha? – Minha mãe começou a rir também, aquela sua risada, que parecia uma sucessão de gemidos e que sempre terminavam com um “misericórdia meu pai”.
            Acho que eu tinha uns cinco anos, então, talvez pela idade, talvez por minha natureza, eu era um profundo observador e nunca conseguia conversar com adultos, achava-os chatos, complicados, mas, com Tina e Leco eu conversava e contava tudo o que vinha a minha mente, todas as minhas histórias, todos os meus sonhos, minhas esperanças e eles sempre retribuíam com aquele seu olhar generoso e cheio de amor.
            -- Pega Leco, pega...e lá ia Leco correndo com Tina a seu lado buscar qualquer coisa que eu jogasse, voltava todo feliz, estendia o objeto da busca a meus pés, ficava em pé e começava a me lamber.
            -- Leco, você está muito fedido – disse certa vez e o empurrei bruscamente com toda a força de um garoto  de cinco anos – naquele dia Leco ficou distante por mais que o chamasse, ele aninhou-se no meio dos bambus em frente a casa de Isadora e não saiu de lá, aquele dia quando deitei chorei um pouco, pois não queria perder meu amigo, mas nada como uma boa noite de sono, no dia seguinte acordei com as lambidas de Leco e os latidos felizes de Tina.
            O tempo que moramos na casa de Isadora, minha mãe conseguiu seu primeiro emprego na “Malharia da Dona Chandra”, como ela dizia,  então, como ela recebia seu salario toda a sexta-feira, com certeza as sextas – feiras era dia de comer pudim que ela trazia da padaria.
            -- Filho, qualquer hora dessas vou te levar para conhecer o Zézinho, um moço tão bonzinho lá da malharia. – realmente ele era bonzinho, no dia que eu o conheci, ele me levou para almoçar naqueles “por quilo” que já eram moda na época, foi quando eu comi muito e ele ficou surpreso em como devorei a salada em meia dúzia de garfadas. Achei ótima a situação, aprendi então que as travessas de acompanhamento em qualquer refeição tem que ser servidas aos poucos e não viradas completamente no nosso prato como eu fiz.
            Lembrei então que minha mãe sempre foi muito rigorosa com a educação apesar de nossa pobreza, mas não tinha jeito algumas coisas ia ter que aprender sozinho, observando as pessoas que eu julgava humanas, educadas, grandiosas.
            -- Leco, menino, vem aqui, eu tiro a camiseta e você veste – arranquei a camiseta, tinha começado a chorar, começaram alguns sons noturnos, eu achava que eram uivos, uma lagarta passeava pela parede, eu morria de medo e não sabia o que era pior se os pernilongos que pareciam atacar em hordas ou o frio que parecia congelar nossos corpos.
Leco era mais forte, colava-se a mim, Tina gemia e seu gemido incomodava-me mais que o frio e os pernilongos, meus dois maiores amigos estavam sofrendo e eu não sabia se iríamos sair dali, sair daquele buraco fundo, escuro e úmido.
            Passamos a noite assim, alternava meus choros, com gritos tímidos de “socorro”, abraçava forte Tina e Leco, o buraco que caímos minava agua e aos poucos ficamos molhados também.  Após aquela noite de mordidas constantes de pernilongos, cochiladas curtas e gemidos constantes de Tina, o dia começava a nascer. A luz do sol incomodava meus olhos, seu brilho começou a nos aquecer, minha primeira reação foi sacudir Tina e Leco, eles tinham que estar bem.
            -- Leco, Leco, Leco...Tina, Tina... – foi quando meu coração, encheu-se de alegria, Tina soltou um pequeno gemido e rapidamente soltou sua língua enorme para fora da boca e começou a pular ao meu lado e Leco por sua vez começou a pular, abanar o rabo e latir, comecei a chorar de alegria, afinal meus dois amigos resistiram comigo e apesar de não entender muito de nada, senti-me naquele momento como meu herói a época, o National Kid, que não tinha medo de nada e enfrentava qualquer parada. Pensei por algum tempo que iríamos morrer ali, apesar do sol que entrava e iluminava uma pequena parede daquele grande buraco, apesar do canto dos pássaros lá fora que possivelmente eram quero-queros, os pássaros que aprendi a amar aquela época e que simbolizavam a força para mim.          
            De repente tudo voltou a silenciar novamente, lembrei do filme que tinha assistido aquela semana, na tv preto e branco de Isadora, era “Robinson alguma coisa” não lembrava ao certo, mas contava a vida de um homem muito forte que viveu durante muito tempo sozinho em uma ilha.
Em minha cabeça de um garoto de cinco anos de idade, enchi meu peito, cocei um pouco os caroços das mordidas de pernilongo, nos braços, nas pernas e na barriga e pensei – Vou ter que cuidar de Tina e Leco, para sempre, mas como nesse buraco? – Pensei que se começasse a cavar sem parar quem sabe um dia chegaria a algum lugar, pensei em como faríamos se mal conseguíamos nos mexer nesse buraco, pensei no que comeríamos pois estava com fome, pensei novamente em minha mãe, quem iria protege-la e comecei a chorar novamente. Tina e Leco começaram a me lamber e sem perceber cochilei novamente.
            -- Aqui! Aqui! Ele esta aqui! Aqui... – Era uma voz de homem, que começou sozinha e aos poucos as vozes foram aumentando, eu conseguia perceber vozes de adultos, vozes de mulheres, vozes de crianças e de repente a voz de minha mãe intercalada por choros desesperados.
            Os homens do carro enorme vermelho descobri mais tarde que eram bombeiros, eu havia rezado grande parte da noite para o Nacional Kid aparecer, mas com o tempo descobri que eram tão heróis quanto meu herói preferido.
Um dos momentos mais felizes de minha vida foi quando minha mãe me agarrou e abraçou, em minha cabeça eu voltaria a protege-la novamente, quando na verdade fui descobrir um pouco mais tarde, era ela quem me protegia.
Passei por um festival de abraços e beijos e os bombeiros com suas mãos grossas e pesadas fizeram questão de todos passarem a mão em minha cabeça.
            Tina e Leco latiam e pulavam em uma alegria incontrolável, aquela manhâ minha mãe caprichou no mingau de fubá e no meu pão caseiro. Aos poucos todos se foram, o carro enorme dos bombeiros, os vizinhos, as aves silenciaram acho que afugentadas por toda aquela agitação, Leco deitou em seu cantinho preferido próximo a escada de entrada e Tina aninhou-se em uma cadeira. Isadora caprichou no almoço, a temperatura caiu na parte da tarde, ficamos ali bem juntinhos, eu, minha mãe e Isadora, contando historias de medo e rindo um pouco.
            Tina e Leco ganharam novo status na casa, passaram a ser tratados com todo o amor possível e ficamos cada vez mais inseparáveis.
            Na parte da tarde naquele dia, após assistirmos “Perdidos no Espaço” na tv, peguei dois de meus carrinhos preferidos e deixei um na cama de Tina e outro na cama de Leco, afinal eles eram meus melhores amigos e havíamos passado por uma barra pesada juntos.
            -- Tato, achei na banca o livrinho novo da coleção da Disney... – Gritou minha mâe, entrei correndo e sorrindo, era a historia do Peter Pan e esse “cara” parecia ser tão bom quanto o Nacional Kid.


5 comentários:

Anônimo disse...

Me encantei, moço! Muito.

Anônimo disse...

Amei.... que coisa linda!!!

Tudo de bom, Luciane Castiglioni

Altair Almeida disse...

Obrigado, um abraço a todos.

Sandra Kobata disse...

lindo... lendo e vivendo junto...como é bom conseguir passar sentimentos para o papel. Beijos!

Altair Almeida disse...

Ayakooooooooooo, grato pela presenca, amiga querida de muitos anos. um abraco.