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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Teia de aranha




-- Insuportável, essa e’ a palavra certa.  Além de conviver com suas constantes reclamações e sua noção de justiça totalmente confusa ainda tenho de conviver com isso? – Rita com a idade, ou melhor, com a maturidade deixou de ser a moça alegre e extrovertida, centro das atenções onde quer que estivesse, a estrela, a sorridente, a que atraía todos os olhares masculinos e femininos era agora taciturna, mal-resolvida,  sem  nenhum  humor e de poucas palavras, as rugas estavam ali sulcando seu rosto, a pele caida...Seu dia resumia-se a sua pequena rotina: acordar, alimentar os animais, passear com os cães, ver o noticiário da manha, limpar a casa e preparar o almoço, pois logo Mirella estaria em casa par almoçar e voltar correndo para o trabalho.
Era isso, sem mudar-se uma vírgula, tudo o que ela não queria, tudo o que não havia sonhado, ela odiava Mirella por isso, Mirella era a visão de seu fracasso em todos os sentidos, no amor questionado por amigos e cheio de conflitos ao longo desses quinze anos, do sexo rotineiro e raro feto mecanicamente,  como  para cumprir uma tabela de campeonato, das palavras curtas justamente para evitar conflitos, de seu fracasso profissional, nunca chegou a lugar algum, estudou o que não gostava, fazia o que não gostava, era o que não gostava.
            No lustre da entrada, um grande lustre cheio de braços  parecendo uma imensa aranha pendurada no teto , com umas vinte pequenas lâmpadas, um velho lustre com vinte pequenas lâmpadas sujas, amareladas e opacas, estava a grande teia de aranha envolvendo praticamente todos os braços... – Não vou limpar de jeito nenhum, ela está vendo, passa por aqui todos os dias, pensando o que? Não me ajuda em nada e quando limpa a casa não é capaz de limpar esse lustre. Uma displicente, largada...
            O barulho dos saltos era de passos rápidos, os cães começaram a latir e uivar, vendo a presença de Mirella que acabara de descer do carro, uma mulher atraente para muitos em seus cerca de quarenta anos, uma mulher que era a visão do fracasso e de toda a representação do “ruim” para Rita – Rita! Passei no mecânico, o conserto vai ficar uma fortuna, aprendi tudo sobre “junta do cabeçote” querida – começou a rir a sua gargalhada longa e espalhafatosa – e quando somos nos mulheres querida, eles inventam problemas até no paraíso não é? – Entrou a passos rápidos, passou pelo lustre repleto de teias de aranha, Rita fuzilou-a com o olhar ao perceber sua indiferença ao passar pelo lustre.
            -- O que tem para comer Rita? Querida, hoje o consultório esta repleto, o que acontece com todo mundo hem? Esse mundo esta louco querida, todos brigam por tudo. Hum, feijão fresco, maravilhoso. – Rita deu um pequeno sorriso, colocou as panelas rapidamente na mesa, colocou o suco, talheres, guardanapos, o molho de pimenta que Mirella gostava.
            -- Você viu onde deixou aquele meu esmalte novo, vou passar na manicure a tarde querida, ela não tem esse esmalte.
            -- Não vi não Mirella, você lava a louça do almoço? – Rita estava entediada, não aguentava mais o mesmo trabalho domestico, todos os dias, não aguentava mais sua rotinazinha e principalmente a louça após o almoço.
            -- Querida, você esta brincando, mal vai dar tempo de engolir  a comida e voltar correndo para o consultório. – A mesma história de sempre, a mesma desculpa de sempre, Rita transformara-se em uma domestica de luxo, sem direito a respeito, a amor e a teia de aranha... a teia de aranha iria permanecer ali pois ela não limparia aquele lustre de forma alguma, Mirella precisa acordar, Mirella precisa entender que  o mundo não girava ao seu redor, que ela tinha que ajudar em casa, que as coisas não tinham que acontecer somente quando ela queria, ela precisava começar a ajudar e começar a reclamar menos.
            Os dias iam passando, era verão e as chuvas eram sucessivas,  Rita odiava cada vez mais e mais o lustre pendurado ali na entrada de sua casa, odiava passar embaio dele, a impressão era que um aranha iria pular em sua cabeça a qualquer momento, seu corpo coçava todo sempre que o via e era uma coceira insaciável, de cravar as unhas e não parar mais.
            As vezes acordava com a decisão de limpa-lo, de tirar toda imensa teia de aranha dali e poli-lo com algum produto especial, deixando-o cintilante, as vezes jurava que jamais iria limpa-lo, quem comprou o lustre e o instalou ali foi Mirella e Mirella tinha que parar de enxergar somente o que interessava e também fazer só o que interessava.
            Dias e mais dias e a teia de aranha aumentando – Meu Deus, é insuportável, é um absurdo, ela passar dez, vinte vezes por dia embaixo desse lustre  e não ver a nuvem que se tornou esse emaranhando de teias, um absurdo – uma aranha de mais ou menos um centímetro e meio, com suas longas e compridas pernas caminhava lentamente pela imensa teia, como um bom engenheiro chocando todos os detalhes de sua obra, Rita desesperou-se mais ainda por ver que a aranha havia crescido, o pequeno ovo de algumas semanas atrás já era uma pequena aranha, ela estava em seu limite, Mirella que não se envolvia com nada, que só se preocupava com seu próprio umbigo, esse dia iria ouvir e ouvir muito.
            O barulho do carro chegando novamente, era novamente horário do almoço, os cachorros começaram novamente a latir e uivar, a rotina da manha havia se ido, os cachorros haviam passeado, todos os animais alimentados, louca lavada, casa completamente limpa – Almoço da madame agora – pensou rindo para si mesma.
            -- Oi querida, o que temos hoje para o almoço?  Lasanha? Hum... – jogou a bolsa no sofá e já instalou-se na mesa esperando ser servida, tamborilando os dedos e examinando as unhas.
            --  Mirella, quando você vai limpar aquele seu lustre imenso na entrada de casa? Reparou que esta repleto de teias de aranha? – Falou com a sua voz mais  enérgica.
            -- Querida, venha cá – levantou-se calmamente da mesa e estendeu sua mão para Rita, Rita olhou sem entender, de mãos dadas as duas caminharam para a entrada da casa – olha para a teia, esta vendo a aranha? Era só um ovinho Rita e agora e’ essa moca negra e bonita.
            -- Você esta louca Mirella? Você esta querendo me matar?  Criando uma aranha agora? Já não basta todo o trabalho que tenho e que você me da?
            -- Querida, no stress, vamos a noite ao cinema? Jantar fora? Visitar seus pais? Deixa a aranhazinha ai Rita, deixa a menina constituir família, vou indo esta bem?  A noite conversamos.
            Rita juntou toda a louca, um copo caiu e espatifou-se no chão, soltou alguns impropérios, passou em frente a um dos banheiros, a porta estava aberta, olhou demoradamente sua imagem refletida no espelho, tocou as olheiras – que enormes – olhou seus cabelos secos e sem brilho, as roupas desgrenhadas.
            Uma aranha charmosa caminhava pelo lustre lentamente, com suas pernas longas e de lá sondava o ambiente, pois era hora de buscar alimento, quem sabe uma mosca ou algum outro insetozinho qualquer.
            Rita olhou para a aranha, talvez a aranha estivesse muito bem, não era possível afirmar, mas Rita sabia que ela mesma não estava bem e quem tinha que entender e talvez mudar um pouco seria ela mesma.
            Uma aranha envolvia uma pequena mosca em sua teia e voltava a caminhar lentamente...



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Diário de Bordo: Data Estelar 28/12/07








Diário de Bordo: Data Estelar 28/12/07
(Trecho do Livro: "A Batalha das Feras e dos Pálidos Infantes")


     As temperaturas estão variando cada vez mais nesse pequeno planeta azul-acinzentado, sim estão variando... Há dias, cara nave-mãe que quase morremos de frio, há dias que quase morremos de calor....Uns falam que são efeitos do buraco na camada-de-ozônio, outros falam que é o final dos tempos, outros, que é culpa de todos os habitantes essa situação, e eu acho que no final,é tudo isso mesmo.
    Os habitantes aqui reservam-se datas para comemorar datas especiais, sim cara nave-mãe isso é verdade, por mais confuso que pareça ser, mas há que se ter essas datas, pois nos intervalos entre essas mesmas datas, eles passam o tempo se destruindo, se degladiando e se matando por pequenas coisas, por pedaços de terras, por conflito de idéias, por conta de intrigas e invejas e pelo que acham correto que colide frontamente com a opinião de outros que acham que, o que os primeiro acham correto está totalmente errado.
     Além da total falta de comunicação e incompreensão de quando falam a mesma língua, eles tem mais de 100 linguas diferentes , então talvez esteja ai, um dos problemas de sua total falta de comunicação ou talvez nâo pois mesmo quando falam a mesma língua a incompreensâo é total, mais um ponto para Hal 9 analisar.
     Falando em celebração de datas, esse é o mes do natal, nessa data se comemora a vinda de um salvador, um mártir, que no fim  acabou  nâo salvando ninguém e ainda foi executado, mas a celebração é a da fé nesse salvador, fé nos princípios e nas lições deixadas por esse salvador, então ficamos aqui confusos, onde foi parar esse salvador? esses dados serão levados a nosso computador de bordo....para tentarmos entender também...
     Nesse mesmo natal, morreram muitas pessoas nas estradas, muitas pessoas foram presas, os comerciantes comemoraram suas vendas polpudas, os pequeninos da espécie, muitos foram executados, outros são executados lentamente no dia-a-dia, pela fome, pela ausencia de amparo, mas mesmo assim ainda arrumam tempo para fazerem alguns malabarismos nos faróis.
     Fizemos vôos rasantes com nossa nave de exploração, visitamos festas por aqui, onde havia a celebração de uma falsa alegria, visitamos palanques de politicos onde a celebração era a hipocrisia e também visitamos olhares esperançosos, de amantes, de crianças, de trabalhadores, de mães dedicadas e constatamos que seu olhar era esse mesmo, de esperança, de alegria e isso pelo que analisamos os move a frente sempre a frente.
     Vimos as novas tecnologias desse planeta e como eles são fascinados por isso, mas cara nave-mãe, oque fazer-se com tanta tecnologia, se eles não possuem a tecnologia básica de convivencia em grupo e de  zelar e protege esse mesmo grupo e um ao outro?
     Talvez com o "polinomio de benares" em nosso super-computador de bordo, consigamos dar a luz a tantas questões, mas minha conclusão básica, é que por mais material que coletemos, nossos cientistas de bordo e de nosso planeta, nunca chegarão a algum lugar...Enfim...
     Pedi ao sr. Sumu e ao sr. Rocharsk para acertarem nossa rota, para rotas circulares sempre fazendo um cruzamento de latitudes  e longitudes, de forma que varramos os pontos principais desse planeta e pelo menos suas formas geográficas sejam bem mais claras para nós...
Sigamos em frente então....

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Diário de Bordo - Data Estelar 12/07/2007





( Trecho do livro "A Batalha das Feras e dos Pálidos Infantes)



     Nosso navegador, Sr. Sumu, tem colocado todos os esforços para uma correção de rota, cálculos e mais cálculos que não estão nos levando a nada no momento, é frustrante. Atravessamos sim, uma chuva de meteoritos, algumas nebulosas, mas desviar dos grandes meteoros é que foi nosso grande problema (nenhuma avaria felizmente) ...

     Temos problemas com a equipe também e talvez nossa maior missão seja voltar para a casa após observar esse planeta tão absurdamente perdido em egos, olhares vazios e dissimulados e guerras em todos os níveis.
     Bom, as vezes nos perdemos com o objetivo de nossa missão e fazemos o que estamos fazendo agora, alteramos algoritmos, revemos cálculos, revemos objetivos, revemos anseios, revemos nosso coração, revemos a missâo.
     Colhemos material, sim, colhemos muito material, dias atrás em uma dessas coletas nos deparamos com o vôo das borboletas, e chegamos a conclusão que era impossivel estabelecer um destino para o vôo desses seres, já que eles não pretendiam chegar a lugar algum e pareciam estar felizes assim.   Após uma reunião intensa, com toda a tripulação da nave (cerca de 50 tripulantes), saímos com a mesma questão da reunião, como sair pelos ares, pelo espaço-tempo  sem objetivo algum e parando a cada cor ou flor que encontrar pelo caminho? Estamos enviando essa questão para nossa nave-mãe, pois Hal 9 (nosso hiper-computador de bordo da série Omega 131) ficou confuso também com a questâo...
     Vimos travestis em atos sexuais em plena luz do dia, ou seria plena luz artificial do inicio da noite? Nos perguntamos o porque do nosso choque, o amor não seria livre? Mas o ato sexual em um lugar público seria amor?  E o que na verdade é o amor?
   Pesquisamos alguns ditos "mestres" desse planeta e alimentamos Hal 9  e chegamos a conclusão que o que vimos não era amor, pois após muitos cálculos e divagações com as metáforas, aforismos, eufemismos e varios outros ismos Hal 9 nos divulgou um relatório de 3 linhas, dizendo que "amor é algo atemporal, compassivo, tolerante e que não exige nada em troca". Só não conseguimos entender a questão da atemporalidade ainda, pois um dos sábios do planeta em seus textos e apontamentos nos falou da relatividade e da curva do tempo e também da teoria das cordas, então, o tempo sempre existe sob a ótica do observador? E do objeto observado?  Então o tempo  é atemporal, então o que fazer com o tempo? E com o tempo que temos? E com o tempo que não temos?
Bom, voltemos a Hal 9...
     Seguimos com a missão, dessa vez pretendemos coletar "gestos", que já falamos tanto, mas nunca nos atentamos detalhadamente...
Continuamos com a missão, as vezes abatidos, por andar um pouco em circulos com nossa nave, as vezes mais animados com as respostas de Hal 9, mas a nossa energia vital, talvez nem Hal 9 tenha, é essa energia de renovar-se a cada dia e nunca voltar atrás no nosso vôo, em nossa caminhada...
Continuamos com a missâo...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Diário de Bordo - data estelar - xyz brsp 01/02/07





Diário de Bordo - data estelar - 

(Trecho do livro "A Batalha das Feras e dos Pálidos Infantes")


    Sobrevoamos alguns mares, e percebí que olharmos os mares do alto de nossa espaçonave é o mesmo que viajarmos pelo hiper-espaço é a mesma sensação de vastidão, de infinito...
     Tentamos contato com habitantes em terras gélidas, pinguins-imperadores, a comunicação foi fácil, entendemos sua necessidade de acasalamento, as responsabilidades de um pai, de uma mãe...tentamos contato com outros seres desse planeta, os homens, ai a dificuldade foi tremenda, pois além da fonética ininteligível, eles falam por gestos, por olhares esquivos e as vezes dizem exatamente o contrário do que realmente gostariam de dizer.....Transcrevemos todos os diálogos para o nosso computador de bordo, que não está acostumado com essa lógica, que na verdade não tem lógica nenhuma, na verdade beira surreal.
     Base, tenho saudades de minha amada, com seus afazeres em nosso planeta gelado, ainda bem que me situo na parte mais acolhedora e aquecida do planeta. Esse "ainda bem", tenho que revisar de imediato, pois torço para que ela retorne para o lado "aquecido" do planeta em minha volta para casa.
      Nosso navegador, fez algumas correções de rota, então zigue-zaguearemos mais algumas centenas de anos por aqui. Ontem, em uma de nossas missões locais, verificamos a importancia das trocas no planeta, o que eles chamam de moeda, é vital para a sobrevivência, vital eu diria porque quase todos matam e morrem por essa coisa chamada "moeda".
     Recolhí algumas "moedas" e tenho-as no bolso agora, recolhí tambem uma forma expressiva de arte, a música,  verifiquei que todos, independente da espécie neste planeta, tem a música em sua alma, ela parte das formas mais rudimentares, como gritos de acasalamento, passando pelos requintes de seu exponencial maior, a música erudita.
     Sobrevoamos campos de centeio (uma bela visão), sobrevoamos cascatas, sentimos a variação dos ventos e pretendemos fazer incursões em alto mar. De imediato, como comandante enfrentei também algumas insubordinações, mas nada sério, considerando o tempo que estamos ausentes de casa e a pressão que somos submetidos.
Base, essas são as pequenas, ou melhor, a falta de novidades de hoje, nossos planos são fazer mais incursões terrestres hoje, entender melhor o gestual contraditório humano, entender as discrepancias dos seres e de alguns agrupamentos dos mesmos humanos, em alguns países em especial.
     Finalizo, lembrando mais uma vez a saudades de minha amada, que talvez esteja perdida próximo a algum porto de Alexandria, Azimuth, Aldebaran ou Alexânia...

Continuamos com a missão...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Diário de Bordo : Data Estelar 30/01/07






Trecho do livro: "A Batalha das Feras e dos Pálidos Infantes"




Diário de bordo: Data Estelar 30/01/07

     A missão nesse planeta continua a ser de observação e aprendizado, aprendemos a falar todas as linguas, menos a língua dos homens. Esse detalhe, penso que, como comandante da missão seria importante resolvermos o mais breve possível e não se preocupem, já estamos trabalhando nisso...
     Percebemos que há uma certa angústia no ar, que todos correm para cá e para lá incessantemente e ficam inquietos e insatisfeitos quando chegam a algum lugar, querendo chegar a um novo lugar, isso causou confusão em nossas avaliações.
     Recolhemos amostras de árvores, olhares, gestos, sorrisos, peles, cheiros, temperaturas, ou seja, a nave segue abarrotada de volta para casa. Esforçamo-nos (eu particularmente como comandante e também meu imediato) a aprender a fazer poemas concretos (uma linguagem falada por poucos por aqui), mas o máximo que aprendemos, foi a confecção de versos que remetem a um tal período de uma coisa chamada literatura romântica, confeçção de versos românticos, que na verdade como diz nosso cientista de bordo, não chegam a ser românticos, chegam a ser um exercício de algo que não definimos ainda, chamado ora solidão, ora paixão...ou seja, algo relativo e desconexo, algo em constante mutação.
     Andamos pelas ruas, travestidos de humanos, o ar é péssimo, o humor é péssimo, a cor do céu é de uma coisa que ora lembra o azul, ora lembra algo mais para o cinza, ora não lembra nada, mas, esse mesmo céu as vezes toma proporções maravilhosas, quando percebemos habitantes alados que deslizam suavemente por suas camadas de ar (a missão ficou confusa também sobre esse ponto), uns diziam que esses habitantes são chamados de aves, outro por não serem nunca percebidos pelos olhares humanos que são anjos. Concordei, com nosso cientista de bordo, como só foram detectados por nossos aparelhos de espectros, eram anjos sim, de uma beleza incrivel, ora louros dos cabelos mais dourados, ora negros de uma beleza indescritivel, interessante que não conseguimos definir as fronteiras entre seu interior e exterior, ou seja, sua geometria e formas são inexplicáveis.
     Provamos algo, chamado sorvete, nosso cientista, detectou que esse tal de "sorvete", causa inexplicáveis prazeres a todos, mas devido a distancias de suas geografias, distancias tambem sociais (eles tem esse grande problema), muitos nem conhecem o sabor de tal sorvete.
     Verificamos muitos lugares, espaços limitados, espaços comprimidos e ultra-otimizados (nesse ponto já não diria que foram otimizados, mas na verdade estragados) onde os habitantes se comprimem e se agridem constantemente, esses lugares são bolsões chamados "cidades", mas ai percebi algo extremamente interessante tambem,  os mesmos habitantes que moram em lugares, de vegetação mais extensa, com rios, campos e menos habitantes, sofrem um pouco menos desse mal, mas tem o mesmo mal, estamos levando amostras dessas cidades.
Como eles não tem o minimo de planejamento, isso aliando-se ao seu extremo egoísmo, acaba ocorrendo uma luta muito intensa e de forma desigual por todos pela sobrevivencia.
     Como são muitos os habitantes, como são muitas as cidades, eles tem tambem formas maiores de se agrupar, que são chamadas paises e continentes. Há um continente em especial cuja tradução achamos até poética (com a licença de nossa Base de Comando), "Asia", cujo significado é "terra onde o sol nasce" e "Europa" (deram até esse nome para uma deusa): "terra onde o sol morre".
     Há males de todos os tipos, pragas, doenças, mortes, esgotos a céu aberto, tratados que são feitos para não serem cumpridos, ha agrupamentos maiores (países) dominando agrupamentos menores, há alguns nomes que estamos procurando identificar ainda, como infanticídio, pedofilia, matança descontrolada de outros habitantes, uns com nome até engraçados como: tamanduás, jaguatiricas, leões-marinhos.....mas após tabularmos tudo, percebemos que a maior dor desses habitantes é a solidão.
    Nosso cientista, Sr. Sumu tentou de todas as formas tabular, dissecar, definir o que é esse sentimento de solidão, eu como comandante, só tenho a dizer que não consegui "experenciar", mas a ví estampada em todos os rostos, a ví traduzida em músicas, em quadros, em poemas, e por todos os lugares que passei...Junto as várias amostras que recolhemos, estamos enviando uma lágrima, alguns sorrisos que captamos no ar, um pequeno vaso com uma pequena planta muito bonita e peculiar chamada avenca, recolhemos tambem um pouco de orgulho e de dor (o tal do orgulho estava abundante por todo o lugar) e o objeto mais valioso que recolhemos até o momento, foi quando conseguimos captar, um momento precioso desses habitantes, quando uma mãe que acabou de dar a luz dá o primeiro abraço em seu filho...
..Continuamos com a missão...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Confie em mim




-- Confie em mim, dá a sua mão – gritou bem forte – dá a sua mão, bem que eu disse que esse ultimo grampo não estava bem fixo, por isso o cabo rompeu – o sol iluminava com seu dourado toda a orla, mês de férias, a orla estava lotada, os morros também estavam iluminados pelo verde e pelo reflexo dourado do sol.
-- Nita, não consigo, não consigo me mover, estou exausto...—seus braços estavam doloridos, machucados, a roupa suada, seu cheiro estava insuportável,  a escalada demorou quase 3 horas, muito vento, um vento inesperado naquele entardecer no Rio de Janeiro.
-- Ele não vai conseguir...molengão, Deus o que vou fazer? – Pensava Anita, seu coração havia disparado, a mochila onde iam também o celular e o rádio comunicador havia caído a mais de 2 horas atrás, o Rio de Janeiro “continuava lindo”, asas deltas no arpoador, o movimento de final da tarde em Copacabana, no Leblon, na Tijuca, o bondinho fazendo suas últimas viagens, tudo na mais perfeita calmaria.
-- Dá a mão rápido, pelo amor de Deus Fábio. Espera! Respira fundo, se segura mais um pouco, depois dessa respirada, você faz um super esforço e tenta esticar o braço – Anita estava deitada, deitada em um vão na parede do lado norte do corcovado, um vâo imperceptîvel,  a escalada foi planejada, cabos de aço e todo o material de segurança checados, ganchos também checados e rechecados, mas o inesperado estava ali presente mais uma vez e por  infelicidade o cabo estourou e um dos ganchos soltou-se e deixou Fábio ali pendurado e beirando o pânico.
-- Nita, lembrei da canção do Chico “Construção, lembra? "Amou daquela vez como se fosse a última..." – Fábio falava misturando um pouco de dor, de gemidos, tentando aparentar a calma que o pânico parecia não querer deixar emergir. – Melhorou Nita, encaixei meu corpo nesse outro  vão aqui e o corpo está doendo menos, só não quero ter cãibras nesse momento, desgraça é ter cãibra.
-- Você tem que sair daí, não tem como a gente pedir socorro, Fábio fica calmo, vai dar tudo certo – Um paraglider  cruzava o céu a cerca de quinhentos metros, a praia vista dali começava a esvaziar-se – Droga! Porque resolvemos escalar hoje, essa droga de tempo também, vira sem avisar ninguém, pode ser o meteorologista do século, que não vai adivinhar  o que se passa com São Pedro  -- esboçou um leve e nervoso sorriso nesse momento.
Fábio fazia nesse momento uma breve reflexão, sua vida passava rapidamente por sua mente, o garoto que o surrava periodicamente em sua escola no primário, sua mãe e sua beleza radiante que o deixava profundamente enciumado, o primeiro LP que comprou, -- a trilha do James Bond e com o Roger Moore – pensou, pensou também na viagem que faria par ao sul no final do mês, os penteados e o vestido vermelho de sua tia, os conselhos de sua avó e também as surras periódicas da velha maldita.
-- Nita, o corpo esta doendo Nita, esta doendo porra. – lágrimas começaram a sair de seus olhos turvos e ardidos, ardidos pelo suor, pelo sol que os havia castigado naquela tarde de novembro, pela mistura com suas lágrimas.
Mais paraglides cruzavam o céu, Anita começou a acenar, de uma maneira desajeitada, pois estava praticamente deitada e encaixada naquele vão na parede norte do Corcovado – Olha aqui, olha moço –  acenava para outro paraglide, as luzes douradas do céu, o azul do mar, o colorido mutante da praia, pequenos pontos brancos ao longe que pareciam gaivotas, surfistas ao longe pegando as últimas ondas do dia,  um perfeito cenário, um perfeito cenário que não combinava em nada com o desespero de Anita e Fábio.
-- Nita, eu não posso me mexer, o corpo dói muito e eu não posso me mexer, acho que de hoje não passo Nita.
Deixa de ser besta Fábio, logo vão dar falta da gente, fé querido, tenha fé – seu corpo também doía, lembrou de Ana, de Isadora, de sua mãe, das pequenas correndo na praia lambuzando-se de sorvete – Mãe, mãe, o moço do sorvete...—lembrou que Isadora era fascinada por doces especialmente por sorvete, por alguns segundos tranquilizou-se, não estava ali pendurada a trezentos e cinquenta metros, estava lá abraçada com Ana e Isadora e lambuzando-se de sorvete.
-- Nita, vou urinar, a bexiga também esta doendo, não estou sentindo as pernas – a urina escorria em um jato forte e quente por dentro de sua calça, o cheiro bateu forte nas narinas de Fábio e também nas narinas de Anita. Ele em um momento de pânico começou a chorar baixinho, lembrou do trabalho, da promoção que iria sair esse ano e de sua mãe e sua eterna “pegaçâo” no pé, lembrou-se da música do Pretenders “Back on the chain gang”, seu choro aumentou, as lágrimas continuaram a escorrer silenciosamente,.
-- Nita, faz tempo que não te digo isso, mas adoro o negro de seus cabelos, adoro seu corpo, seu cheiro, o tom de sua pele, adoro sua boca, Anita acho que não saiu dessa e precisava te dizer isso.
Anita olhou com ternura para Fábio – Fábio tenta ficar em pé, voce tem que sair daí já o outro gancho vai soltar a qualquer minuto, vai devagar, tenta ficar pelo menos de joelho, tenta  dar um pulo que agarro sua mão,  cabe nós dois aqui nesse vão, a gente espera algum resgate, uma hora aparece alguém, tenha calma meu amor.
A noite chegava rapidamente, a lua começava a mostrar seu brilho no céu, a praia começava a esvaziar-se ao mesmo tempo que as luzes começavam como pequenas estrelas a surgir de todos os cantos da cidade.
O braço de Fábio doía muito, estava exausto, Anita já não sabia o que pensar, conseguiu olhar para seu relógio de pulso – oito horas, estamos aqui a pelo menos seis horas, ajuda Senhor.
            Esgotados, ambos estavam esgotados, em Copacabana, os primeiros quiosques e bares noturnos começavam a abrir suas portas, muitos corriam no calçadão, muitos pedalavam, todos sorriam, afinal o dia foi ensolarado e gratificante, carros passavam com seus sons altos, os chopps chegavam gelados em todas as mesas.
            Isadora e Ana começavam a perguntar por sua mãe e por seu pai, Fábio era como se fosse seu pai, o amavam,  mas ao mesmo tempo distraíam-se com a programação de desenhos na tv.  A música chegava alto da rua, o ritmo do funk que sacudia os bairros nos bailes e também em algumas esquinas, a linha Amarela estava interditada, balas perdidas, vitimas inocentes, mais um dia como outro qualquer no Rio, o bondinho enguiçou e seria manchete de jornal no outro dia.
-- Nita esta bem, vou me jogar e tentar pegar sua mão, você é forte, acho que vai conseguir me segurar amada, é nossa única chance, porque não vou aguentar esperar o resgate, não vou aguentar, mas se não der certo...
            -- Vai dar meu bem, fé Fábio, você pede sempre para que eu tenha fé, tenha fé Fábio, vamos vencer mais essa – esfregou suas mãos na calça, percebeu que não adiantou muito pois por mais que as secasse elas permaneciam umidas, seu coração parecia que ia sair pela boca, era agora ou nunca, eles iam sobre viver ou não, era tudo ou nada.
            -- Prepare-se Nita, vou me jogar, você agarra com uma mão e já segura com a outra esta bem? Como naquele curso de resgate que fizemos, lembra?
            -- Sim Fábio, agarro com uma mão e já seguro com a outra, eu sei, eu lembro.
            Fábio começou a levantar-se aos poucos, seu rosto contorcia-se de dor, o cheiro de urina estava forte, seu corpo doía e tremia, conseguiu ficar de joelhos, perfeitamente encaixado na pedra e de joelhos, percebeu que quando ficou de joelhos que nunca conseguiria tomar impulso para lançar-se e agarrar a mão de Anita, aos poucos tentou ficar em pé e esticar o corpo, conseguiu.
            -- É agora Nita, vou me lançar, vai dar certo meu bem, segure firme minha mão, no três esta bem?
            -- No três Fábio. –Fábio lançou-se, sabia que seria sua última escalada e também seu último voo, mas queria ao menos tocar a mão de Anita pela ultima vez, pela ultima vez.
            Começaram a contagem juntos....—um....dois....três – Fábio lançou-se, seu pé falseou, chegou a tocar os dedos de Anita, mas nem ao menos conseguiu se segurar, sentiu pela ultima vez a mão de Anita e seu corpo saiu em um voo vertiginoso e acelerado rente ao corcovado.
            -- Não Fábio, não...—Anita gritou, um grito visceral vindo do fundo de seu peito, vindo do fundo de seu coração, Fábio sumiu naquele voo em meio a escuridão rapidamente, não ouviu nenhum som, não ouviu nada, apenas ele tentando pegar sua mão. Lembrou de tudo que viveram juntos, lembrou do nascimento das meninas, lembrou do dia do casamento,  das flores que ele invariavelmente a presenteava, lembrou do primeiro carro que compraram juntos, lembrou, lembrou, lembrou....e lançou-se também em um voo inesperado, queria estar onde Fábio estava, qualquer que fosse o lugar, sumiu para sempre no meio da escuridão, no mesmo momento suas filhas olhavam pela janela, contando estrelas no céu.
            Nunca mais se soube nada a respeito de Anita e Fábio, os corpos jamais foram encontrados, passaram a fazer parte das estatísticas de desaparecidos.
Nas noites de novembro eles voam juntos de mãos dadas ou escalam aceleradamente a costa norte do Corcovado, jurando um amor eterno que nem o Corcovado ou qualquer força do Cosmos vâo terminar.